Realismo

- Vou me matar! Vou me matar! – gritava enquanto criava coragem para pular.

Gritava pela primeira vez, e no fundo, gostava da sensação do grito, de esvaziar os pulmões até não sair mais absolutamente nada. E o alívio de recuperar o ar o mais rapido possível.

Respirar dava-lhe sensações que ele nunca imaginou ter com nada. Nunca aproveitou tanto um momento quanto àquele, no ato de gritar e respirar.

- Talvez não chegasse a esse ponto se gritasse antes – Pensou cinquenta vezes em um minuto. Pensar ele sabia, era expert no ato de conversar com si mesmo. Amigos, só os imaginários, e eram mesmo verdadeiros, pois estavam lá com ele nesse momento, também.

Há um ano atrás ele não precisava dos amigos imaginários, dos gritos, da respiração e da morte. Porque ele tinha tudo que precisava. Ele tinha. A vida era mais suave do que nunca, e ele não tinha tempo pra pensar em besteiras. Ele nem pensava!

Mas aí tudo foi pros ares, ele não tinha mais, e a vida se tornou insuportável novamente. Talvez mais insuportável do que era antes.

O que restou foi o grito, o grito e a morte. Pular naquele momento deixou de ser uma opção para ser o único caminho. Não existe mais volta, existe o pulo, e só.

Pulou, e no percurso em direção ao chão pensou naquele último ano, na vida que conheceu e que não conseguiu viver sem. Na injustiça de perder aquilo que o segurava em pé. E no alívio da morte. Quase tão bom quanto o grito.

O chão interrompeu a reflexão, e interrompeu a vida que ali ainda se formava. É fato que a vida no planeta continua, mas com um pedaço a menos de realismo, estirado no chão de uma rua movimentada.

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3 Respostas para “Realismo”

  1. kyrsten Disse:

    Menino… que coisa! Quanta sensação descrita!!! Dá quase prá sentir o carinha se esbodegando no chão! Aff… Dá uma bela reflexão sobre a vida!

  2. Mah Disse:

    “com um pedaço a menos de realismo, estirado no chão de uma rua movimentada.” - minha parte favorita.
    você melancólico como sempre.
    o sofrimento faz de nós poetas.

  3. Tatty Disse:

    Mto bom o texto! As palavras conseguem nos passar a intensidade das sensações! Porque o grito, seguido do pulo, não foi simplesmente um caminho, mas sim um caminho de fuga. Fuga da realidade que atormenta.

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